Ouro - O metal amarelo das estrelas
Ouro - O metal amarelo das estrelas
1. A origem histórica e a alquimia
Ouro, símbolo químico Au(do latim aurum que significa "amanhecer brilhante"), é um metal precioso que tem sido usado desde a antiguidade na produção de joias, moedas, esculturas, vasos e como decoração de edifícios, monumentos e estátuas.O ouro não corrói e, por isso, tornou-se um símbolo de imortalidade e poder em muitas culturas antigas. Sua raridade e qualidades estéticas o tornaram um material ideal para as classes dominantes demonstrarem seu poder e posição.
Tem como transformar outros metais em ouro? Até tem. Mas sairia muito caro. Cientistas, como o prof. Glenn Seaborg(1912-1999), ganhador do prêmio Nobel de 1951, fez uma transformação de quantidade irrisória de Bismuto em ouro. Então alguém poderia pensar:”Não dá para ‘arrancar’ três prótons do Chumbo e transformá-lo em ouro? Em tese, daria. Mas a energia exigida é muito alta, e seria muito caro. O CERN, o maior laboratório de física de partículas do mundo, conseguiu transformar algumas gramas de chumbo, por alguns segundos, em ouro. Em 2015 foi feito isso. Mas o custo de extrair 1kg de ouro da natureza seria de U$ 60.000 dólares. Já o custo de “transformar” 1kg de chumbo em ouro custaria um quatrilhão de dólares. Os alquimistas medievais não estavam, de todo, errados. Aquilo só não poderia ser calculado.
Onde o ouro foi encontrado pela primeira vez? Desde o período neolítico, em cidades Mesopotâmicas como Ur e Uruk, assim como em Tróia e Micenas. Os túmulos reais de Ur ultrapassaram todas as descobertas já vistas. O arqueólogo britânico Leonard Woolley(1880-1960) foi quem trouxe essas descobertas à tona.
Havia um alto nível de Ourivesaria naquela região mesopotâmica. Sabiam aplicar filigrana e granulação com ouro em alto nível. Mas não havia ouro na região da Suméria. Então esse ouro veio, provavelmente, da Ásia Menor(atual Turquia), Núbia(atual Sudão), Índia e Ásia Central. Vinha de longe. Mas os reis de Ur tinham ouro em alta quantidade. Houve também túmulos na atual região de Varna, na Bulgária, que foram descobertos 281 esqueletos, onde em 61 deles continham 3.028 cujo peso ultrapassou 6kg. Abaixo, a origem dos elementos periódicos nas estrelas.
2. Origem estrelar
Mas de onde veio o ouro da terra? Das estrelas. Ou, pelo menos, da colisão de algumas delas. A maioria dos elementos mais leves que o ferro é forjada no núcleo das estrelas. O centro incandescente de uma estrela alimenta a fusão de prótons, comprimindo-os para formar elementos progressivamente mais pesados. Mas, além do ferro, os cientistas se perguntam o que poderia dar origem ao ouro, à platina e aos demais elementos pesados do universo, cuja formação requer mais energia do que uma estrela consegue reunir.
Por milhares de anos, os humanos buscaram uma maneira de transformar matéria em ouro. Os antigos alquimistas consideravam esse metal precioso a forma mais elevada de matéria. À medida que o conhecimento humano avançava, os aspectos místicos da alquimia deram lugar às ciências que conhecemos hoje. E, no entanto, com todos os nossos avanços na ciência e na tecnologia, a história da origem do ouro permaneceu desconhecida. Até pouco tempo atrás.
Na manhã de 17 de agosto de 2017, uma ondulação espacial passou pelo nosso planeta. Ela foi detectada pelos detectores de ondas gravitacionais LIGO e Virgo. Essa perturbação cósmica veio de um par de estrelas de nêutrons do tamanho de uma cidade, colidindo a um terço da velocidade da luz. A energia dessa colisão superou qualquer laboratório de colisão de átomos na Terra. Ao saberem da colisão, astrônomos de todo o mundo, incluindo brasileiros com o telescópio T80-Sul, localizado em Cerro Tololo Inter-American Observatory, no Chile, entraram em ação. Telescópios grandes e pequenos varreram o pedaço do céu de onde vinham as ondas gravitacionais. Doze horas depois, três telescópios avistaram uma nova estrela – chamada kilonova – em uma galáxia chamada NGC 4993, a cerca de 130 milhões de anos-luz da Terra. Ou seja, quando ocorreu tal explosão, os nossos dinossauros ainda vagavam pela terra.
Os astrônomos haviam capturado a luz do fogo cósmico das estrelas de nêutrons em colisão. Era hora de apontar os maiores e melhores telescópios do mundo para a nova estrela para observar a luz visível e infravermelha resultante da colisão.
Assim como as brasas de uma fogueira intensa esfriam e escurecem, o brilho residual desse fogo cósmico se apagou rapidamente. Em poucos dias, a luz visível se apagou, deixando para trás um brilho infravermelho quente, que eventualmente também desapareceu. Mas nessa luz que se apagava estava codificada a resposta para a antiga questão de como o ouro é feito.
Um estudo feito no Astrophysical Journal Letters, relata que, nos últimos 2,5 bilhões de anos, mais metais pesados foram produzidos em fusões de estrelas de nêutrons binárias, ou colisões entre duas estrelas de nêutrons, do que em fusões entre uma estrela de nêutrons e um buraco negro.
O entendimento começa com o espectro de luz solar(o que inclui o nosso arco-íris). O espectro da kilonova(colisão de médio porte, entre as supernovas e as novas) continha as impressões digitais dos elementos mais pesados do universo. Sua luz carregava a assinatura reveladora do material da estrela de nêutrons decaindo em platina, ouro e outros elementos do chamado "processo r"(processo de captura rápida de nêutrons).
Pela primeira vez, os humanos viram a alquimia em ação, o universo transformando matéria em ouro. E não apenas uma pequena quantidade. Esta colisão criou pelo menos 10 Terras de ouro. Você pode estar usando alguma joia de ouro ou platina agora mesmo. Dê uma olhada. Esse metal foi criado no fogo atômico de uma colisão de estrelas de nêutrons em nossa galáxia há bilhões de anos. E quanto ao ouro produzido nessa colisão? Ele será lançado no cosmos e misturado à poeira e ao gás de sua galáxia hospedeira. Talvez um dia faça parte de um novo planeta cujos habitantes irão embarcar em uma jornada milenar para entender sua origem.
Referências Bibliográficas
1. HUOT, Jean-Louis. A invenção do Ouro. Revista História Viva. São Paulo. Ano III. nº 34. Pgs 58-61. Março. 2006.
2. Alquimia cósmica e a origem do ouro
3. Colisões de estrelas de nêutrons são a mina de ouro no espaço


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